RESUMINDO
"Como se o destino de um país estivesse pendente do resultado de um jogo, como se Portugal fosse uma coisa que voga ao sabor da perícia dos pés de uns quantos."
- uma jangada de pedra ao estilo de Saramago.
segunda-feira
A NOVA RELIGIÃO E OS SEUS SANTOS
"Várias pessoas que mal conheço me disseram ontem algo como “então amanhã todos a um quarto para as oito em frente à televisão”. Primeiro uma no trabalho, depois outra num balcão, outra ainda no prédio, como membros duma seita instruídos para a conversão. Como não sou totalmente estúpido percebi tratar-se de uma referência ao jogo da selecção portuguesa. Desamarelei quanto pude o sorriso e grunhi alguma coisa simpaticamente imperceptível, para não ficar (ainda mais) catalogado como intelectual e desviante sexual. Mas depois fiquei intrigado. Havia qualquer coisa de místico naquele apelo à congregação à volta da fogueira, isto é, televisão. Para mais em casas e bares e restaurantes separados. Como se os meus interlocutores achassem que uma qualquer energia passa deles aos televisores, alapa-se aos raios catódicos ou seus equivalentes hi-tech, concentrando-se orgiasticamente algures e sendo canalizada para um satélite, regressando exponenciada à Terra qual space-juice e entrando nas câmaras que num relvado suíço filmam Cristiano Ronaldo e, finalmente, penetrando o rapaz e inseminando-o de vontade, ao som do frémito de colectivas e patrióticas vibrações.
(se calhar vou mas é mesmo ver o jogo…)" in http://blog.miguelvaledealmeida.net/
Parece-me, inversamente a esta visão difundida por Miguel Vale de Almeida, que os raios são passados inversamente. É como se os pés de Cristiano Ronaldo (o santo), discursassem, passando uma qualquer energia alapa-se aos raios catódicos ou seus equivalentes hi-tech, concentrando-se orgiasticamente algures e sendo canalizada para um satélite, regressando exponenciada à Terra qual space-juice e entrando nos televisores inseminando-nos de colectivas e patrióticas vibrações, e qual seita sentimo-nos parte integrante do todo que é Deus (Futebol), esquecendo as agonias do dia-a-dia.
P.S. Acho que os membros do governo adorariam que os jogos da selecção durassem o ano todo...
"Várias pessoas que mal conheço me disseram ontem algo como “então amanhã todos a um quarto para as oito em frente à televisão”. Primeiro uma no trabalho, depois outra num balcão, outra ainda no prédio, como membros duma seita instruídos para a conversão. Como não sou totalmente estúpido percebi tratar-se de uma referência ao jogo da selecção portuguesa. Desamarelei quanto pude o sorriso e grunhi alguma coisa simpaticamente imperceptível, para não ficar (ainda mais) catalogado como intelectual e desviante sexual. Mas depois fiquei intrigado. Havia qualquer coisa de místico naquele apelo à congregação à volta da fogueira, isto é, televisão. Para mais em casas e bares e restaurantes separados. Como se os meus interlocutores achassem que uma qualquer energia passa deles aos televisores, alapa-se aos raios catódicos ou seus equivalentes hi-tech, concentrando-se orgiasticamente algures e sendo canalizada para um satélite, regressando exponenciada à Terra qual space-juice e entrando nas câmaras que num relvado suíço filmam Cristiano Ronaldo e, finalmente, penetrando o rapaz e inseminando-o de vontade, ao som do frémito de colectivas e patrióticas vibrações.
(se calhar vou mas é mesmo ver o jogo…)" in http://blog.miguelvaledealmeida.net/
Parece-me, inversamente a esta visão difundida por Miguel Vale de Almeida, que os raios são passados inversamente. É como se os pés de Cristiano Ronaldo (o santo), discursassem, passando uma qualquer energia alapa-se aos raios catódicos ou seus equivalentes hi-tech, concentrando-se orgiasticamente algures e sendo canalizada para um satélite, regressando exponenciada à Terra qual space-juice e entrando nos televisores inseminando-nos de colectivas e patrióticas vibrações, e qual seita sentimo-nos parte integrante do todo que é Deus (Futebol), esquecendo as agonias do dia-a-dia.
P.S. Acho que os membros do governo adorariam que os jogos da selecção durassem o ano todo...
terça-feira
OUTRA VEZ FUTEBOL
Transcrevemos do último "Destak" a crónica do médico psiquiatra José Luís Pio de Abreu: "Quando, em qualquer parte do mundo, me perguntam de onde sou e eu respondo com o nome do nosso país, já não deparo com aquelas expressões indiferentes ou perplexas que escondem a ignorância ou a dúvida.Pelo contrário, o nosso interlocutor esboça um sorriso condescendente e exclama: ah, sim, futebol, bons jogadores. Afinal, já somos reconhecidos; temos direito à existência.Mas se a conversa se alonga e falo da história, dos descobrimentos, logo os outros se perguntam sobre o último Mundial ou o próximo Europeu.Os mais idosos ainda podem falar do Eusébio. Se falo da nossa língua, falada em todos os continentes e também no Brasil, acabamos por discutir a nacionalidade do Deco. Se falo dos nossos ilustres, do Prémio Nobel da Literatura, do Presidente da República, ou mesmo do Dr. Alberto João Jardim, atiram-me à cara com o Cristiano Ronaldo e o José Mourinho. Se falo do clima, das paisagens ou monumentos, o mais que posso partilhar é o Estádio da Luz ou talvez outro.Foi a pensar no que somos e na identidade que temos, que andei por aí a vaguear. De facto, com hambúrgeres, MacDonalds, shoppings, franchisings e aquelas maravilhas arquitectónicas que tanto se podem ver aqui como em Berlim, já pouca coisa nos distingue.Excepto uma coisa: a bandeira, ou as bandeirinhas todas iguais que apareciam nas janelas das casas. Só que agora já não se vêem.Mas quando passei pela sede da Federação Portuguesa de Futebol, na Rua Alexandre Herculano, lá estavam ainda as bandeirinhas todas iguais em todas as janelas. Estavam ali como uma revelação: afinal, este país é um clube de futebol."
J.L. Pio Abreu
J.L. Pio Abreu
quarta-feira
Gosto de arte. Em especial da arte conceptual.
A arte Conceptual supõe que: a) a Arte consiste numa ideia básica e que não terá que ter necessariamente uma forma material; b) a matéria básica da Arte é a linguagem e que não há distinção entre a Arte e a Teoria da Arte e que c) a actividade artística é uma investigação sobre a natureza da própria Arte.
A Arte Conceptual é uma tendência iniciada nos anos 60 e 70 que procura abolir radicalmente o objecto artístico, desviando a atenção do espectador da obra executada para as suas propostas ou documentação, textos, notas, filmes, vídeo, gráficos, etc.
As primeiras experiências conceptuais tendiam a reforçar a ideia de paralelismo entre a Arte e a linguagem, ou que a Arte é uma forma de linguagem.
A Arte Conceptual teve nas suas origens no Ready-made, invenção de Marcel Duchamp, no contexto do Dadaísmo em 1917, ao propor para exposição como peça de escultura, um vulgar urinol de folha, assinado “R. Mutt” e intitulado “Fonte” (ver Dadaismo e Cubismo). Marcel Duchamp estava “mais interessado na ideia do que no produto final”, criando assim uma forma de “arte como ideia” essencialmente anti-formalista.
A pintura do Surrealista René Magritte, especialmente “ceci n’est pas une pipe” de 1928, coloca em dialogo o titulo da obra com a sua imagem, suscitando um confronto linguístico que está na base da Arte Conceptual.
A Obra emblemática inicial foi “One and Three Chairs” de Joseph Kosuth de 1965.
A Arte Conceptual não tem uma origem definida no tempo, mas começou a surgir como uma tendência artística a partir dos anos 70.
A arte Conceptual supõe que: a) a Arte consiste numa ideia básica e que não terá que ter necessariamente uma forma material; b) a matéria básica da Arte é a linguagem e que não há distinção entre a Arte e a Teoria da Arte e que c) a actividade artística é uma investigação sobre a natureza da própria Arte.
A Arte Conceptual é uma tendência iniciada nos anos 60 e 70 que procura abolir radicalmente o objecto artístico, desviando a atenção do espectador da obra executada para as suas propostas ou documentação, textos, notas, filmes, vídeo, gráficos, etc.
As primeiras experiências conceptuais tendiam a reforçar a ideia de paralelismo entre a Arte e a linguagem, ou que a Arte é uma forma de linguagem.
A Arte Conceptual teve nas suas origens no Ready-made, invenção de Marcel Duchamp, no contexto do Dadaísmo em 1917, ao propor para exposição como peça de escultura, um vulgar urinol de folha, assinado “R. Mutt” e intitulado “Fonte” (ver Dadaismo e Cubismo). Marcel Duchamp estava “mais interessado na ideia do que no produto final”, criando assim uma forma de “arte como ideia” essencialmente anti-formalista.
A pintura do Surrealista René Magritte, especialmente “ceci n’est pas une pipe” de 1928, coloca em dialogo o titulo da obra com a sua imagem, suscitando um confronto linguístico que está na base da Arte Conceptual.
A Obra emblemática inicial foi “One and Three Chairs” de Joseph Kosuth de 1965.
A Arte Conceptual não tem uma origem definida no tempo, mas começou a surgir como uma tendência artística a partir dos anos 70.
quinta-feira
Lisboa revisited 1923
NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistasDas ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.
Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Álvaro de Campos
NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistasDas ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.
Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz!
Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Álvaro de Campos
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